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Conto: O Jumento e o cavalo.

 O Jumento e o Cavalo


Num curralzinho, no interior do Brasil, vivia um jumento forte, de pelo viçoso, patas torneadas e fortes, musculatura  imponente  e um sorriso contagiante, o Juto, popularmente conhecido como “Fuguetinho”, porque …velozmente… estava sempre a correr, e é claro, por seu temperamento acalorado, um tanto “esquentado”! 

Juto pastava regaladamente, ao alvorecer, antes de começar a lida. Os primeiros raios de sol iluminavam o caminho e dava cor à forragem. Nutria-se de feno e capim. Bebia água, água limpa e logo começava a trabalhar.

Tenório, o seu dono, colocava a carga nele e ambos marchavam até a cidade, umas boas léguas, para fazer entrega de mercadorias.

Juto avistou um cavalo, um do tipo Oveiro Preto, de pelagem preta com manchas brancas. E sentiu inveja. Desejou ser imponente, pomposo como ele. 

Voltou para casa. Cabisbaixo.

Tenório supôs que o companheiro estivesse demasiadamente fatigado, afinal o contagiante sorriso do jumento desaparecera.

“O coração alegre aformoseia o rosto, mas pela dor do coração o espírito se abate. “

Provérbios 15:13

A face de Juto abateu-se. 

Naquela noite, “deitado em berço esplêndido, no macio feno já aquecido pelo tempo permanecido,”
 ao som 
da cigarra e à luz
do
céu profundo, junto ao curralzinho, sobre a cerca de  eucalipto cloeziana, apareceu um nobre vagalume, Pygo (Grego).

-Tenho o poder de conceder dois desejos - pronunciou Pygo, retirando o pequeníssimo chapéu  da cabeça em sinal de cumprimento ao jumento. O que você deseja?

Juto abriu um sorriso. Imediatamente lembrou-se do cavalo. Num ímpeto brandiu:

-Desejo parar de trabalhar como um jumento!

O vagalume disse:

-Seu desejo foi concedido, Juto!

Juto dormiu.

Ao acordar, deparou-se com um silencioso e impiedoso incêndio, que  consumira toda a plantação de arroz de Tenório, seu dono. O fogo queimou toda a cerca do curralzinho e o armazém de grãos. Ele olhou para os lados e pensou: “ agora sou livre, sem cercas e sem trabalho. Vou pastar por aí sem destino certo.”

Juto passava horas dormindo. Juto passava horas comendo… comendo no pasto. Comendo no pasto do vizinho. Escondido. “Afinal, a grama do vizinho sempre é mais verde.

-Comer. Dormir. Tudo o que eu precisava, quem inventou o trabalho?? Retrucou o jumento.
Decorridas semanas, Juto, percebeu-se no reflexo das calmas águas do riozinho azul. Viu-se diferente: redondo, sem músculos e triste. Apesar de comer mais, ele estava mais…mais fraco!

Que estranho!

Juto decidiu indagar o cavalo.

-O que o faz ser tão forte, imponente e pomposo? Porque você parece carregar tantas cargas com alegria?

O cavalo não o reconheceu.

O Oveiro Preto, puxando uma carga, respondeu:

Quando eu era um potro, ouvia meu avô dizer ao meu pai: 


Quem relaxa em seu trabalho

é irmão do que o destrói.” E meu pai devolvia a ele uma resposta: “Não ame o sono,

senão você acabará ficando pobre; fique desperto, e terá alimento de sobra”.


“Não fazer nada é o trabalho mais cansativo do mundo, pois você não pode se demitir e descansar!” Sirvo ao meu dono, Juto. Por que sirvo? Por que servir  é deixar o status para alcançar um propósito.

Juto parecia não ter compreendido aquela conversa, mas guardou as palavras do Oveiro.

Comia todo dia num pasto novo; não tinha vínculo; não tinha dono; não tinha carga. 

Ao olhar de longe, passeando pelas redondezas, avistou Tenório, seu antigo dono. Recordou-se do antigo pasto. Recordou-se da água fresca e limpa. Recordou-se do feno e do capim novo. Recordou-se da escovada na barriga. Recordou-se de pertencer!

Tenório lhe fazia cócegas, admirava a força de seus  músculos. Ele dizia-lhe  palavras que não compreendia, mas ele sabia que eram elogios. Tenório e ele, juntos, eram uma equipe, um ao outro ajudava. Juto carregava a carga que Tenório não conseguia carregar sozinho e Tenório dava comida e água, zelo, carinho…e um lugar para pertencer.

 Olhou para o curral queimado e já caído, e pela primeira vez, enxergou aquele lugar como uma proteção. E não como prisão.
Então, perplexamente pensou:

-O que foi que eu desejei!?
Saiu a galopar contristado. Apressado e desesperado,  quanto mais corria, mais percebia a liberdade desejada se tornar uma inclemente  ilusão. 

Todo o pasto do vizinho foi aos poucos sendo queimado e todos os currais destruídos. Desvelou-se uma miríade de animais. Animais livres. Nada de trabalho, nada de ovos, nada de leite,  nada de capim, nada de água limpa. Nada de cafuné.

Juto entendeu que a recompensa é o fruto do trabalho.

Todos trabalham.  Todos comem. Todos descansam.

O cavalo Oveiro Preto não tinha mais nada para fazer, pois tudo houvera sido destruído pelo fogo.
Deparando-se com seu dono de joelhos diante da destruição, comoveu-se. Galopou até ele. Abaixou a cabeça em sinal de respeito e começou a remover os tições, os troncos  quebrados,  jogou terra com as patas para trás apagando  o fogo;  virou com um coice a cacimba de água e  a fumaça começou a subir. Os animais vendo o cavalo apagar o fogo sozinho se uniram cada um do seu jeito. Se todos trabalham, todos comem e todos descansam!

Juto envergonhou-se de sobremaneira. Chorou, chorou e chorou. Quis ajudar. E quanto mais tentava, mais chorava. O seu choro comoveu o céu. O céu escureceu. Choveu, choveu e choveu. O fogo esmaeceu. O fogo conteve-se. O fogo comoveu-se. O fogo apagou. Juto dançou de alegria na chuva, correu tenazmente para casa.  Quando avistou  Tenório, zurrou palavras ininteligíveis e abaixou a fronte em respeito. Tenório abraçou o companheiro. Juto sentiu-se perdoado. Correu para arrastar os entulhos espalhados pelo quintal, porque o amor quebra todo o jugo. Um ao outro ajudou. 

Dias. Meses. Tempos depois, com muito trabalho, o arroz nasceu.  Juto transportou; Tenório vendeu; Juto comeu, bebeu, dormiu, trabalhou, alegrou e se fortaleceu, serviu e ganhou. 

O mundo é uma engrenagem em que cada parafuso, cada catraca, importa muito.
Eu preciso de você, você precisa de mim e todos precisam de Deus até o fim. Até o arroz, a chuva. O jumento, o Tenório, você e eu.

A cerca precisa de Deus.


A cerca é de madeira. A madeira vem da árvore, que precisa da chuva, que precisa crescer, que precisa do homem, que precisa do prego. Quem fez o prego? O homem. De que é feito o prego? De ferro.  Quem fez o ferro? Deus! Todos precisam de Deus. E todos precisamos uns dos outros.

O vagalume, Pygo, reapareceu.
E o segundo desejo de Juto nem foi necessário ser usado.

 O arrependimento o levou à mudança, sem ajuda de um ser mágico.

Ricelly Catalunha


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